Dor no quadril em crianças: quando é apenas crescimento e quando pode ser um problema?

É relativamente comum que crianças reclamem de dor nas pernas ou no quadril em algum momento do crescimento. Muitas vezes, esses episódios são rapidamente atribuídos às chamadas “dores do crescimento”, levando pais e responsáveis a acreditar que o desconforto desaparecerá sozinho com o passar dos dias. Em boa parte das situações isso realmente acontece. No entanto, nem toda dor no quadril durante a infância tem essa origem, e alguns sintomas podem indicar doenças que exigem diagnóstico e tratamento precoces.

O desafio é justamente diferenciar um desconforto passageiro de um sinal de alerta. Crianças nem sempre conseguem descrever exatamente onde dói ou quando a dor começou. Algumas passam a mancar discretamente, evitam correr, deixam de brincar ou reclamam apenas no final do dia. Esses pequenos detalhes costumam ser mais importantes do que a intensidade da dor e ajudam o especialista a identificar quando existe necessidade de uma investigação mais aprofundada.

Nem toda dor faz parte do crescimento

A expressão “dor do crescimento” é bastante conhecida, mas frequentemente utilizada de forma inadequada. Ela costuma se referir a dores musculares que aparecem principalmente no fim do dia ou durante a noite, acometem as duas pernas e desaparecem completamente pela manhã, sem deixar limitações para caminhar ou brincar.

Quando a dor está localizada especificamente no quadril, provoca dificuldade para andar ou faz a criança evitar determinadas atividades, é importante considerar outras possibilidades. Isso porque diversas doenças ortopédicas da infância têm justamente esse tipo de apresentação inicial.

Outro aspecto importante é que a verdadeira dor do crescimento não costuma provocar mancar, perda de mobilidade ou limitação funcional. Quando esses sinais estão presentes, a avaliação médica deixa de ser apenas uma precaução e passa a ser parte importante do diagnóstico.

Quais doenças podem causar dor no quadril infantil?

dor no quadril

Existem diferentes condições capazes de provocar dor no quadril durante a infância, e elas variam conforme a idade da criança.

Uma das causas mais frequentes é a sinovite transitória do quadril, uma inflamação temporária da articulação que costuma surgir após infecções virais e provoca dor súbita, geralmente acompanhada de dificuldade para caminhar. Apesar de normalmente apresentar boa evolução, ela precisa ser diferenciada de doenças mais graves.

Outra condição importante é a doença de Legg-Calvé-Perthes, caracterizada por uma alteração temporária da circulação sanguínea da cabeça do fêmur. O problema costuma aparecer entre quatro e dez anos de idade e pode provocar dor, limitação dos movimentos e claudicação progressiva.

Na adolescência, uma das doenças que mais preocupa os ortopedistas é a epifisiólise proximal do fêmur, situação em que ocorre um deslizamento da cabeça do fêmur em relação ao restante do osso. Esse quadro exige diagnóstico rápido para reduzir o risco de complicações futuras.

Além dessas doenças, infecções articulares, traumas, doenças reumatológicas e alterações congênitas também fazem parte do diagnóstico diferencial.

O que deve chamar a atenção dos pais?

Nem sempre a criança consegue explicar exatamente o que está sentindo. Muitas vezes, o primeiro sinal percebido pelos pais é uma mudança no comportamento.

Algumas deixam de correr, evitam subir escadas ou passam a pedir colo com mais frequência. Outras começam a mancar discretamente, mesmo dizendo que “não está doendo tanto”. Esse tipo de compensação costuma ser um mecanismo natural para reduzir a sobrecarga sobre a articulação.

Também merece atenção a dor que acorda a criança durante a noite, persiste por vários dias ou impede atividades que antes eram realizadas normalmente. Quanto mais tempo esses sintomas permanecem, maior a necessidade de investigação.

Quando a criança manca sem ter sofrido uma queda

A claudicação — nome dado à alteração na forma de caminhar — é um dos sinais mais importantes durante a avaliação ortopédica infantil.

Embora pequenas quedas façam parte da infância, uma criança que começa a mancar sem um trauma evidente merece atenção especial. Em muitos casos, esse é o primeiro sinal de doenças que ainda provocam pouca dor, mas já estão comprometendo o funcionamento da articulação.

Além disso, algumas crianças não apontam o quadril como local do desconforto. Elas podem reclamar apenas de dor na coxa ou até mesmo no joelho, mesmo quando a origem do problema está no quadril. Esse fenômeno ocorre porque algumas estruturas compartilham vias nervosas semelhantes, fazendo com que a dor seja percebida em regiões diferentes.

Leia também: O que é a artroscopia do quadril e quando ela é indicada?

Como é feita a investigação?

dor no quadril

A consulta começa com uma conversa detalhada com os pais e, sempre que possível, com a própria criança. Entender quando a dor apareceu, se houve febre, infecção recente, trauma ou dificuldade para caminhar ajuda bastante na definição das hipóteses diagnósticas.

Em seguida, o exame físico avalia amplitude dos movimentos, força, alinhamento dos membros inferiores e padrão da marcha. Muitas doenças do quadril infantil apresentam limitações bastante características durante essa etapa da avaliação.

Quando necessário, exames de imagem complementam a investigação. A radiografia costuma ser o primeiro exame solicitado, principalmente para avaliar alterações ósseas e doenças do desenvolvimento. Em algumas situações, ultrassonografia ou ressonância magnética podem ser indicadas para analisar melhor estruturas internas da articulação.

Exames laboratoriais também podem ser solicitados quando existe suspeita de infecção ou doenças inflamatórias.

O tratamento depende da causa da dor

Não existe um tratamento único para toda dor no quadril infantil. Algumas condições, como a sinovite transitória, costumam melhorar com repouso relativo e acompanhamento médico. Outras exigem fisioterapia, uso de órteses ou até tratamento cirúrgico.

É justamente por isso que evitar o autodiagnóstico é tão importante. Administrar analgésicos repetidamente sem descobrir a origem da dor pode aliviar temporariamente os sintomas e retardar o diagnóstico de doenças que precisam de intervenção precoce.

Quanto antes a causa é identificada, maiores são as chances de preservar o desenvolvimento normal da articulação e evitar sequelas futuras.

Quando procurar um ortopedista?

Nem toda dor isolada exige atendimento imediato. Entretanto, alguns sinais indicam que a criança deve ser avaliada o quanto antes.

Entre eles estão:

  • dificuldade para caminhar ou mancar;
  • dor persistente por vários dias;
  • limitação dos movimentos do quadril;
  • febre associada à dor;
  • dor após trauma importante;
  • recusa em apoiar a perna;
  • dor intensa durante a noite.

Nessas situações, a investigação precoce permite identificar rapidamente condições que podem comprometer o desenvolvimento da articulação caso permaneçam sem tratamento.

FAQ

Dor no quadril em crianças sempre é dor do crescimento?
Não. Diversas doenças ortopédicas podem provocar sintomas semelhantes e precisam ser investigadas.

Quando devo me preocupar se meu filho começar a mancar?
Sempre que a claudicação surgir sem uma causa evidente ou persistir por mais de um ou dois dias.

A criança pode sentir dor no joelho quando o problema está no quadril?
Sim. Algumas doenças do quadril provocam dor irradiada para a coxa ou para o joelho.

Toda dor no quadril exige exames?
Não. A necessidade de exames depende da avaliação clínica realizada pelo especialista.

Quais doenças precisam de tratamento mais rápido?
Condições como infecções articulares e epifisiólise proximal do fêmur exigem diagnóstico e tratamento precoces para reduzir o risco de complicações.

A dor no quadril durante a infância nunca deve ser interpretada apenas como parte natural do crescimento. Embora muitas causas sejam benignas e tenham boa evolução, algumas doenças exigem diagnóstico precoce para preservar o desenvolvimento da articulação e evitar problemas futuros. Se a criança apresenta dor persistente, começa a mancar ou reduz suas atividades habituais, uma avaliação especializada é o melhor caminho para esclarecer a causa dos sintomas e iniciar o tratamento adequado quando necessário.

Dr. José Sales ortopedista especialista em quadril

Atendimento completo em ortopedia, traumatologia do esporte e cirurgia do quadril, com técnicas modernas e base científica.

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